MUDANÇA PARA A CASA DE TIA ANTÔNIA


Naquele tempo existia muito preconceito, os que mais sofreram foram mamãe e meu irmão.           
Perto de casa morava a tia Antônia e tio Silvio, casados já alguns anos e não tiveram filhos, mas criavam  dois sobrinhos filhos da tia Amélia que faleceu e deixou os dois órfãos, Antônio com dois anos e Miguel com quarenta dias.             
A titia e o titio não eram humanos, eram feitos de OURO, dizem coração de ouro para pessoa boa, eles eram além de bondade, até hoje vivem no meu coração e viverão eternamente.            
Nossa situação e a deles era muito difícil, e assim mesmo nos acolheram.            
A casa de tia Antonia era pequena, cômodos pequenos, dois quartos, sala, cozinha e banheiro, lá fomos morar com os tios. Mamãe alugou a nossa casa para ajudar nas despesas, o aluguel, e os salários de mamãe e do meu irmão.           
Tia Antonia coitada, de duas crianças passou a sete, mais os tios, mais mamãe, num total de dez pessoas.          
O quintal da tia era enorme, ia da Av. Tiradentes até o rio (hoje é Av. Antonino Bastos).          
Nesse quintal a gente plantava e colhia muito do que se comia, quem fazia isso? Éramos nós e a titia. O tio Silvio, mamãe e meu irmão iam trabalhar.           
Tio Silvio quando chegava do serviço, tomava banho, jantava e ia para oficina que ele tinha no quintal, era um cômodo grande, tinha tantas ferramentas, eu sabia o nome de quase todas. De latas de óleo, ele fazia canecas, bacias, panelas, ralador por sinal foi o melhor ralador que eu conheci até hoje, também fazia anzóis para peixes pequenos e grandes, durante o dia vinham pessoas encomendar ou comprar.          
Tio Silvio trabalhava na fábrica Alambique, eu acho que era de moveis, então ele era marceneiro, também era musico e cantor, fazia parte do famoso e saudoso Jazz Conte. Quando não tinha encomendas, à noite depois do jantar ensaiava com seu saxofone, ou cantava.
Nesse tempo eu já ajudava no serviço, enquanto titio tocava, eu lavava os pratos em cima de uma cadeira para alcançar a pia, e também só para ficar perto do tio, gostava de ouvi-lo, eu sempre fui á pupila de Titio e Papai.          
Tia Antonia era muito, muito prendada, casa pequena, toda a noite se fazia as camas no chão, o assoalho era um espelho, as panelas outro espelho, a gente se enxergava, tempo aquele que ajoelhava no assoalho para encerar, depois se passava o escovão (pesado) com um pano de lã para brilhar, fogão de lenha, a tia levantava cedo para acender, e fazer o café para todos, vida bem diferente da de hoje. Esqueci-me de dizer sobre o ferro de passar roupa, era de ferro mesmo, a gente o abria para colocar o carvão, acendia e colocava um fecho na frente, abaixo de onde sairia às cinzas, com partículas de brasa, esse fecho era parecido com um prego ou um grampo, atrás em direção (vamos chamar de chaminé) tinha outra abertura, com uma tampinha que á gente abria para assoprar as brasas que estavam acendendo, assim o ferro ia aquecendo, e tinha que tomar cuidado, porque era bem pesado e perigoso. Assim eu comecei aprender á passar roupa, foi difícil, mas toda roupa que passei nesta minha vida sempre recebi elogios.          
Hora do almoço fila, era gostoso aquele barulho de todos, tinha briguinhas para ser o primeiro, cada um fazia o seu prato, sentávamos nos degraus da área da cozinha, alguns comiam sentados à mesa, com o seu prato, não havia espaço para todos.           
Às vezes alguns brigavam, e primeira coisa que a titia fazia, quando titio chegava do serviço era contar, titio chamava todos, tirava a cinta do macacão, (vestimenta inteiriça, folgada, feita de tecido consistente, usada por operários), a cinta era larga, de couro e tinha umas argolas de ferro. Quando todos já estavam na sala (com o coração saindo pela boca), titio com a cinta nas mãos dizia:     
 -Antonia disse que houve desobediência aqui hoje, quem foi?           
Silêncio total, todos calados, nunca ouve sova, ele era muito enérgico, mas muito nobre, muito bom, sabia educar, fazia nós entendermos com palavras.         
A vida era muito difícil, veio à guerra, levantávamos às quatro horas, íamos à fila do pão, éramos seis, (porque o Valdemar era muito pequeno), então dividíamos, alguns iam à fila do pão. Era vendido um pão por pessoa, só que era um filão, assim era chamado, pois era grande; outros iam à fila da carne, quase morríamos de frio, a ponta do nariz, ficava vermelho. No inverno geava muito em São Roque, se tinha roupa no varal ou na grama, e pegou sereno, amanhecia duro de gelo. Tínhamos que nos agasalhar muito, só os pés ficavam gelados, não havia meia que os esquenta-se. 


Comentários

  1. Que linda estória, seus tios eram encantadores, sua infância apesar de sofrida como vc relata, porém tenho certeza que foi muito feliz! 😘💖

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  2. Vida dificil mas cheia de momentos puros

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